Herança #2
The Ritual - Adam Nevill
No texto anterior gastei algumas linhas a escrever sobre a literatura do corpo. A literatura cujo sucesso depende não só dos parâmetros convencionais através dos quais avaliamos o que lemos, mas também de uma reação física. É difícil argumentar que, literário ou comercial, sofisticado ou simples, vitoriano ou contemporâneo, um romance de horror/terror seja eficaz se não provocar no leitor uma reação física.
O mesmo se aplica ao humor ou ao erótico, mutatis mutandis. Chuck Tingle, essa figura caricata da Internet que vos convido a investigar se não o conheceis, tem um discurso particularmente eloquente acerca de como e quando chegámos a esta subalternização da literatura com impacto visceral.
Para quem se interessar pelo tema, recomendo vivamente ouvir este podcast:
Não vou perder demasiado tempo a resumir o argumento de Tingle, vou apenas admitir que teve grande impacto sobre mim. Esta desconsideração dos géneros do corpo é recente. Não se aplicava quando Shakespeare escrevia comédia, Brontë e Henry James escreviam histórias de fantasmas, ou Lawrence e Miller escreviam literatura erótica.
Hoje, livros como The Ritual de Adam Nevill, são colocados de parte como menores por um simples motivo: o seu apelo escapa à hermenêutica tradicional. Uma leitura académica, racional, meramente interpretativa do texto não pode nem vai compreender o apelo daquilo que Adam Nevill fez. Há passos de Coisas Ruins que nunca poderiam existir se não tivesse lido este livro.
A narrativa é relativamente simples. É uma história sobre um grupo de amigos que decide fazer uma caminhada pelo meio da montanha na Suécia, se perde, e acaba por enfrentar uma miríade de ameaças humanas e sobrenaturais sobre as quais não me vou alongar caso o querido leitor não tenha lido ainda.
Posso dar uma garantia: a mim dificilmente me hão de apanhar em aventuras pelo meio da mata, quer na realidade quer em literatura. O único motivo de interesse possível é enfrentar alguma criatura do averno e mesmo em ficção prefiro deixar esse cantinho específico da experiência humana nas mãos de Nevill e seus pares.
Poder-se-ia escrever muito sobre aquilo que The Ritual tem a dizer sobre o drama humano das suas personagens. Como o isolamento serve de catalisador para a sua humanidade, como a tensão da aventura serve de espelho para as suas tensões interiores. É um romance com teses ricas sobre música extrema, o nexo entre fé e superstição, o impacto civilizador da cidade, entre muitos outros temas.
É um romance rico, bem escrito e estruturado.
E, no entanto, tudo isso empalidece perante o verdadeiro triunfo deste livro. É um quadro expressionista em prosa, um mundo distorcido e quebrado. Uma floresta onde se esconde algo atávico de nós, revelado às camadas conforme as personagens perdem a sua humanidade. A prosa plástica de Nevill não está preocupada com nenhuma das pessoas falsas que a habitam; tem um alvo apenas, o leitor. Cada palavra e cada frase são esculpidas a cinzel para manipular a nossa corrente sanguínea e nos fazer ver como as sombras se mexem ao longo da página. É um pequeno curso de manipulação sensorial, emocional, física.
É um livro do corpo. Um grande livro e um livro do corpo. Li The Ritual nas primeiras semanas de namoro com a minha mulher e várias vezes dei graças aos espíritos do monte por tê-la ao meu lado a adormecer nessas noites. Quando acabei de ler esta pequena pérola negra, soube com clareza que dificilmente quereria escrever uma literatura decapitada, ocupada apenas com os pensamentos do leitor enquanto está acordado. Soube que queria escrever algo que fizesse o coração bater com mais força.
Jonathan Franzen, em Why Bother, escreve assim:
I spent the early nineties trapped in a double singularity. Not only did I feel that I was different from everyone around me, but I felt that the age I lived in was utterly different from any age that had come before. For me the work of regaining a tragic perspective has therefore involved a dual kind of reaching out: both the reconnection with a community of readers and writers, and the reclamation of a sense of history.
Eu, profundamente identificado com este parágrafo (e o ensaio em que se insere), acrescento: não me chega a dupla singularidade. Quero uma tripla. Quero a comunidade, a história, e o corpo.




Estou neste momento a começar a ouvir o Podcast… já tenho programa para a próxima hora e meia. O sono que espere.